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Nossos jovens estão em risco. Diante de uma problemática identificada no Brasil e que notamos em nosso município,  há um agravamento da situação psicossocial de nossos adolescentes.  A evasão escolar, o envolvimento com o tráfico e o uso de drogas e álcool, além de prostituição ocorrem cada vez em idades mais precoces.
Há muitos fatores que se imbricam em uma complexa trama.   À inadaptação a um regime escolar tradicional, aliados à pobreza social e cultural, se juntam os apelos tecnológicos e da sociedade de consumo  que estimulam demandas distantes da realidade econômica.
E se por um lado, a rua oferece a fascinação pelo mundo do crime e do tráfico como meios ilusórios de fácil alcance ao consumo e força competitiva,  de outro temos a debilidade dos  vínculos familiares. E incluímos aqui não só a frágil estrutura dos vínculos,  mas também a quase ausência de figura parental mais organizada mentalmente, a alta frequência de casos de dependência química dos pais.
Tudo isto junto e misturado só pode resultar em um caldeirão diabólico.  Este quadro, ainda que certamente míope, é a que os profissionais do CAPSad tem diagnosticado de maneira crescente e preocupante. Como equipamento de saúde que existe em Itapira desde 2005, o Centro de Atenção Psicossocial para Álcool, Tabaco e outras Drogas oferece tratamento em equipe multidisciplinar voltado para a população adulta.
Há mais de dez anos, entretanto, temos sido convocados para o atendimento de adolescentes que apresentam problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Pelo fato do CAPSad estar organizado prioritariamente para o tratamento de adultos, resulta que estas crianças e jovens passam apenas pelo atendimento que nos é  possível   de parte de equipe.
Os encaminhamentos destes jovens  já nos  chegam carregados de grandes  expectativas – para não dizer fortes pressões de outros adultos e instituições –  para serem internados em hospitais psiquiátricos. Quem os traz, desconhece, por exemplo, que os hospitais psiquiátricos especializados em crianças e adolescentes são distantes de nossa cidade e não têm efetividade para tratamento em longo prazo.
Nossa casuística mostra que 90% de adolescentes que foram internados recaíram pouco tempo após a alta hospitalar. Muitos destes meninos estão com problemas judiciais, além da vida escolar e familiar  precariamente construídas. De modo que, embora ofereçamos o acompanhamento com  consultas psiquiátricas e psicológicas e o respaldo do serviço social, para estes meninos com problemas biopsicossociais complexos e já com prejuízos diversos,  estes recursos são parcos.
Para fora do CAPSad, temos poucos recursos  de saúde, sociais e educacionais mais adaptados para onde encaminhá-los. Também  fomos notando que, no município, havia grande carência de equipamentos sócio-educacionais para a população da faixa etária dos 11 aos 16 anos, mesmo para os jovens que não apresentam problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas ou outros problemas mentais.
Isto nos preocupou ainda mais. Pois entendemos que    esta faixa etária que inclui o início de adolescência é um período  já traz consigo a vulnerabilidade por suas próprias características de instabilidade e de mudanças psicoemocionais. Quando falamos da escassez de recursos para o atendimento de adolescentes no município, não estamos aqui desconsiderando o importante trabalho de entidades como Casa da Criança, Lar São José, Jovem em Ação, AIPA, Sepin e Educandário, por exemplo.
Mas entendemos que estas instituições,  por abrangerem faixa etária extensa, não tem programas mais direcionados e atraentes para  esses adolescentes. As crianças menores, em nossa cidade, tem creches e entidades que, no período contrário ao da escola, oferecem  apoio socioeducativo de muito boa qualidade e abrangência. Mas estamos falando de adolescentes que já têm dificuldades de se adaptar aos poucos recursos que lhe são oferecidos.
Estamos falando da margem, do risco, dos comportamentos limítrofes, dos buliçosos, dos turbulentos. Dos que não conseguem aprender mas se dão bem na rua. Dos que são espertos para as leis da sobrevivência e não para as exigências civilizatórias. Dos que se iniciam cedo no sexo,  mas não se protegem.  Dos que já estão cumprindo Liberdade Assistida enquanto nem terminamos de lhes oferecer o fundamento de sua civilidade.
Temos tentado várias maneiras de integrar a rede de saúde e de recursos sociais para tratar de modo integrado e acolher estes jovens. Desde reuniões regulares para discussão de casos, como foi o projeto Fermento na Massa, quanto a insistente prática de convocar reuniões, solicitar relatórios e enviar contra referências. Mas isto, embora estas medidas não sejam irrelevantes, elas têm sido em muito insuficientes.
Sabemos que, em parte, isto se dá  pela complexidade dos casos. Dividindo com vocês a nossa dificuldade: como encaminhar um jovem que fica nas ruas para um equipamento social, se o pré-requisito de frequentar a escola não pode ser cumprido? E como reencaminhá-lo à escola se ele de lá saiu por não se adaptar? Entramos em um labirinto de impossibilidades que só perpetuam a já perigosa conjunção de fatores negativos.
Como para  tentar costurar um tecido roto, precisamos de pontos que oferecem recursos mais adequados a esta faixa etária e a estes jovens. Nossa preocupação é sim com estes jovens que já tem a situação muito prejudicada apesar de sua pouca idade. Eles já estão em situação de alta vulnerabilidade e  risco social.
Temos o dever de tratá-los e para isto, criar, inventar, desenvolver atividades e ferramentas, que possam inspirar profissionais e os próprios jovens em estímulos educacionais e culturais,  capacitação profissional, esportes e assim por diante. Foi com esta preocupação que procuramos o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, em Abril. Sua presidenta, Ana Maria N. Brunialti, nos abriu as portas e convocou algumas das representações que fazem parte da rede de proteção da infância e da adolescência.
Estamos tendo reuniões periódicas desta comissão que agora nasce sob o nome de ADOLESCER. Ela está composta por representantes do CREAS, CRAS, Fundação Américo Bairral, Secretaria da Promoção Social, Saúde e Educação, OAB, entidades sociais e nós, do CAPSad.  Expusemos os nossos argumentos em defesa não só destes jovens que já tem problemas graves com drogas, mas de todos os jovens desta faixa etária que também não tem tido investimento em seu futuro que eles merecem.
Estes meninos em breve serão pais de outras crianças que, num triz, estarão repetindo um ciclo de prejuízos sociais, de adoecimento mental, de criminalidade, de incapacidade para o trabalho formal. Acreditamos que o seu futuro possa ser costurado dentro de nossa mesma sociedade em que eles estão cada vez mais à margem.
E sabemos que não temos modelos a copiar. Precisamos do apoio, ideias, ajuda de todos. Sabemos que há um grande desafio à nossa frente. Há que ser um projeto original, adequado à realidade de nosso município e  alimentado com o melhor de nossos sonhos de uma  cidade melhor.
Adriana Rotelli Resende Rapeli é psicanalista. Atua como psiquiatra do Centro de Atenção Psicosocial para Álcool, Tabaco e outras Drogas ‘Rainieri Baiochi’ de Itapira.
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