Alberto Sartorelli – Acerto de contas: por outra história de Itapira

Alberto José Colosso Sartorelli, 21, é itapirense e estudante de graduação em filosofia na Universidade de São Paulo (Isadora Souza/Divulgação)
Alberto José Colosso Sartorelli, 21, é itapirense e estudante de graduação em filosofia na Universidade de São Paulo (Isadora Souza/Divulgação)

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

– Milton Nascimento

Que a História oficial é uma crônica pompier do poder estabelecido, uma narrativa datada que fundamenta a dominação atual das elites, isso não é dado novo. A história de Itapira que tive contato durante toda a minha vida, por meio de colunas nos jornais locais, relatos de conhecidos e familiares, e aprendida na escola a nível fundamental, sempre foi de acordo com as historietas dos grandes feitos dos civilizadores e a mão amiga do imigrante, todos de grande estatura moral e exemplares cristãos, incluindo como apêndice a cultura dos negros, paradoxalmente, como exótica e constituinte.

O bom é que, com o tempo e com a sorte, temos contato com narrativas diversas. E foram a maturidade e a sorte que, nalguma medida, fizeram que eu tomasse contato com a dissertação de mestrado – em verdade uma tese, devido à abordagem inédita – do formado sociólogo Ediano Dionísio do Prado, intitulada “Vila Ilze: o viver fragmentado do “bóia-fria” – um estudo sobre o cotidiano dos trabalhadores volantes de Itapira” (UNICAMP, 2001). O que nos interessará aqui será o primeiro capítulo da tese, chamado “A História propriamente das histórias: Itapira – uma história de expropriação”.

A retórica e a honestidade fazem com que frisemos primeiramente, antes dos infindáveis elogios, os defeitos da tese. A principal falha é o modelo técnico de citação dos autores consultados, que não remete diretamente à obra e ao ano da primeira publicação, deparando-nos com monstrengos técnicos do tipo “(Brandão, 1985b)”. Esse tipo de modelo de citação afasta o leitor não especializado e torna-a objeto de análise de especialistas, fator que diminui consideravelmente a democratização do acesso ao texto, apesar da escrita que, ainda que deveras utilizando conceitos técnicos da sociologia rural, não impede uma compreensão clara do que se espera passar ao leitor. É evidente que um texto acadêmico é no mais das vezes escrito visando um público especializado e restrito, porém, devido à importância do que está dito ali, seria preciso um “achegamento” com o leitor comum, o agente sem rosto da história que Ediano procura combater.

Pois bem, apontada a discordância formal, é momento da concordância teórica e política com a tese de Ediano. O esforço do autor é estabelecer uma história de Itapira para além do clássico jargão de que a cidade foi fundada em 1820 por João Gonçalvez de Moraes e Manoel Pereira da Silva, com a primeira missa oficial realizada numa capelinha de taipa, e começou sua ascensão econômica em 1840, com a chegada do Comendador João Cintra e suas medidas progressistas – Igreja, ferrovia, latifúndio, monocultura, escravidão. Ediano intenta subverter essa história oficial e personalista, caracterizando, a partir de elementos da sociologia rural (destaque para Antônio Cândido, Maria Sylvia Carvalho Franco e Carlos Rodrigues Brandão) a constituição o modo de vida da população que habitava a região da atual Itapira, especificamente o bairro dos Macucos, desde pelo menos 1716, data documental da concessão de uma sesmaria a Manoel Pereira, o Velho; todavia, estima-se que a região de Mogi Mirim seja habitada desde no mínimo 1688, apontando que é possível que a área já tivesse moradores antes disso, talvez posseiros, sem documentos oficiais.

É importante notar que essas datas são pouquíssimo posteriores à abertura dos caminhos até Goiás pelo bandeirante Anhanguera, que saiu de São Paulo em 1682; logo, não podemos derivar que os primeiros habitantes de Mogi Mirim e Itapira tenham sido com certeza dissidentes da bandeira liderada por Anhanguera. Talvez seja mais aceitável pensarmos que esses pioneiros fossem posseiros, homens livres que adentravam cada vez mais ao interior do Brasil em busca de terras produtivas que lhes possibilitassem a subsistência, fugindo da lógica de trabalho servil nos latifúndios de cana-de-açúcar, mais próximos do litoral. Esses primeiros habitantes não-indígenas da região mogiana viviam de modo a não haver distinção social; cultivavam em pequenas lavouras a policultura, predominantemente milho, feijão, mandioca e arroz, e completavam sua dieta coletando e caçando nas matas da região.

Praticavam um catolicismo popular, sem vínculo direto com a Igreja oficial, cuja representante mais próxima estabeleceu-se em Mogi Mirim somente em 1747. Nesse contexto, seria muito fácil idealizar esses povoados como conjuntos de pessoas simples que viviam de modo igual, um inteiramente outro do capitalismo que ali chegaria no século XIX; este é um erro comum ao marxismo vulgar, renunciado por Ediano, que nesse momento demonstra ser um seríssimo materialista histórico e analista dialético. A análise do autor não fetichiza essa população anterior aos “grandes feitos”, incluindo-a numa função marginal da política colonialista da metrópole, mas não excluindo-a desse processo. Esses primeiros habitantes foram importantes para o combate e expulsão dos índios da região, e os posseiros, que com a chegada gradual da economia latifundiária se embrenhavam cada vez mais pelo interior mais profundo do Brasil, realizaram espontaneamente e sem pompas e louros a heroica função designada pela historiografia tradicional como específica dos bandeirantes; além disso, e muito para além das bandeiras, desmatavam e preparavam as lavouras e pastos para o advento do latifúndio do qual fugiam.

Essa população era “caipira”, que segundo a designação de Antônio Cândido, não é um termo que designa raça, e sim um modo de vida compartilhado, com fortes relações de parentesco e vizinhança, apego a uma religiosidade não-oficial e uma subsistência mínima garantida pela relação integral com a terra, na qual não tinham patrões, mas que dela dependiam integralmente. O viajante Luís D’Alincourt, em 1818, descreve esses habitantes da região mogiana como indolentes e preguiçosos, sem ânimo empreendedor para produzir excedentes passíveis de exportação. É digno de nota que a historiografia oficial itapirense, escrita pela elite letrada, ofereça um olhar não muito diferente do “viajante”. Odete Coppos descreve em seu livro Congadas (1971) os trabalhadores rurais itapirenses como “sujeitos feios e desengonçados […] vivendo num primitivismo de pasmar”. O olhar da classe dominante para com o pobre aparece semelhante ao olhar do estrangeiro, como dois mundos que só se tocam porque há uma relação de dominação envolvida.

Passados esses cerca de 120 anos nos quais, segundo Jácomo Mandatto em Relíquias da Terra Natal (1959), nenhum fato importante ocorreu desde a fundação até a chegada do Comendador Cintra (ignorando a história dos primeiros posseiros), o “civilizador” moderno mandou construir uma igreja nova, na qual seriam realizadas missas frequentes, e cujo pároco veio junto do Comendador desde Atibaia. Não bastando a suntuosa empresa, também mandou demolir a antiga capelinha, sem a ninguém consultar. É nesse momento que a fé cristã dos primeiros habitantes do bairro dos Macucos é confrontada com as elaborações eruditas da Igreja Católica, na época em relação de interdependência com os senhores de terras: o senhor oferecia doações à Igreja, e a Igreja “catequizava” a população caipira, impregnando-os de imperativos relativos à obediência e à lógica do trabalho. Era preciso convencer a população a trabalhar para o senhor, já que as terras lhes foram tiradas, seja por grilagem, seja por ameaça física, com a variante dissimulada da compra a preços irrisórios.

Marx chama esse processo de acumulação primitiva, e o identifica na origem da propriedade privada, quer dizer, na origem da civilização. Não há como evitar a comparação da descrição da função da Igreja e da acumulação primitiva em Itapira realizada por Ediano com o percurso argumentativo do historiador inglês Christopher Hill em O mundo de ponta-cabeça (1972). Em busca de mão de obra para o ascendente campo industrial inglês nos séculos XVII e XVIII, o Estado impôs uma política de cercamentos, quer dizer, de acumulação primitiva. O processo funcionava mais ou menos assim: antes, as terras eram comunais, o “dono” era quem trabalhava nela, de maneira análoga aos posseiros no Brasil; com a Revolução Industrial e a demanda de mão de obra urbana, essas terras foram cercadas, e os trabalhadores ficaram sem emprego, sendo obrigados a procurar trabalho nas cidades. O curioso é que Hill caracteriza a religiosidade dessas pessoas como algo de mágico, travando relação com a feitiçaria; quer dizer, uma fé assistemática, distante da teologia cristã. Nas cidades, esses trabalhadores foram obrigados a frequentar o culto anglicano todos os domingos; tal religião é sistemática, e promove uma ética do trabalho.

Isso mostra e eficácia do Comendador Cintra e de todos os outros “forasteiros” com a alcunha de “civilizadores”; demonstração de reconhecimento foi a condecoração de Cintra com a Ordem da Rosa, oferecida por D. Pedro II. As ideias novas que traziam, como já foi dito, eram a fé católica de acordo com as mais atuais encíclicas do Vaticano, uma economia baseada no latifúndio, na monocultura e na mão de obra escrava, e a ferrovia para escoar a produção. Dentro da tríade da historiografia tradicional, Cintra desempenha muito bem sua função: o bandeirante desbrava, o caipira ocupa, o senhor civiliza. Após a chegada do senhor civilizador, os caipiras tiveram quatro destinos possíveis: legitimaram juridicamente suas posses e viveram enquanto sitiantes; tornaram-se agregados nas terras onde antes desempenhavam trabalho livre; foram procurar novas terras enquanto posseiros; foram viver no povoado desempenhando algum serviço urbano.

Ora, se essa história oficial de Itapira renega a população caipira primitiva e prima pelos “grandes feitos” dos “grandes homens”, não é de se assustar que operem da mesma maneira em relação à escravidão. Mas assusta, e muito. Odete Coppos em O livro negro de Itapira (1999) diz dos bairros periféricos da cidade: o “torvo reduto negro de analfabetos” onde as “mulheres negras de ancas largas, seiudas, vira-e-meche de barrigas cheias” criam “as ninhadas de crioulinhos ranhentos”. No mesmo livro, porém, a autora aponta a inserção integral do negro na sociedade itapirense. “Nossos fazendeiros de até 1888, não teriam sido terríveis, pois, a memória da cidade não registra lembranças martirizantes (…); o que vemos é que em todo o município a adaptação do negro deu-se de forma total, classificados na ordem do dia, após a Lei Áurea, em libertos pacíficos, agrupados nos seus redutos habitacionais, iniciados na nova vida sem o saldo da vassalagem e do temor submisso, mas em condições iguais aos demais cidadãos. Os brancos os aproveitam como assalariados e isto traz benefícios mútuos. As negras que se tornam babás, lavadeiras, faxineiras, cozinheiras, são benquistas pelas patroas, havendo camaradagem entre elas e elas são dedicadas como no tempo da escravidão, quando cuidavam das sinhazinhas”.

Ora, isso é um disparate contra a inteligência. Itapira foi uma das últimas cidades do Brasil a abolir de fato a escravidão, e conta com uma mancha inapagável em sua história: a morte do delegado abolicionista Joaquim Firmino, em perseguição por parte dos fazendeiros locais. Os negros libertos tiveram uma imensa dificuldade para encontrar trabalho, muitos instalando-se em regiões periféricas da cidade, desempenhando trabalhos de baixíssima qualificação e remuneração, já que eram rejeitados pelos fazendeiros e pelos italianos. Além disso, quando se diz que não foram açoitados o suficiente para o martírio permanecer na memória da cidade, esquece-se – ou ignora-se – o fato de que os escravos não tinham a possibilidade de escrever sua história, o cativeiro tirava-lhes a individualidade, a liberdade, restando-lhes apenas a morte como algo para chamar de seu. A minha indignação não é menor que a de Ediano, que diz, e enfoco:

“Toda a sua dramática realidade [do escravo negro] é deturpada por uma interpretação que postula um passado primado pela família patriarcal como a metáfora da sociedade brasileira, atenuando os conflitos entre raças diversas, gerando um clima de harmonia, adocicando a escravidão, gestando o império de senhores bondosos e escravos felizes, legando à posteridade, ou seja, aos dias atuais, a inexistência de conflitos étnico-raciais, a “ausência de ódio”, o clima de harmonia, a democratização das relações entre as raças. […] Uma escrita que relega ao esquecimento a sombria e tempestuosa noite da escravidão, que tenta abafar os gritos de lancinante dor lançados por negros acorrentados aos troncos e açoitados em sua dignidade pela ignomínia dos “primeiros”, dos “comendadores”, latifundiários e escravocratas que aportaram nestas terras para realizar o processo de acumulação primitiva do capital. Uma leitura que despende esforços para reprimir o choro e os gemidos que ecoam das negras escravas, fustigadas em suas carnes pela sádica luxúria dos senhores.”

A história oficial de Itapira é a história dos senhores, e dissimula que a luta de classes não acontece por aqui. O filósofo Walter Benjamin diz que “todo documento da cultura é um documento de barbárie”. Não levar isso em conta na narrativa da história pode ser ingenuidade, ignorância ou má-fé. Independente da psiquê dos historiadores oficiais, o fato é que essa história oficial fundamenta, até hoje e não menos do que antes, as opressões sofridas pelos negros e pelos trabalhadores rurais, e fundamenta também a existência do coronelismo moderno, cujos protagonistas são sujeitos “benevolentes e de boa índole”. O mérito-mor de Ediano é inscrever na história de Itapira o elemento da dominação, da opressão, da luta de classes, num dos capítulos mais apaixonantemente engajados com a classe trabalhadora que já li em toda a minha vida. Se essa história não figura nos anais da cidade, o motivo é ideológico, e não podíamos esperar outra coisa. Se o Éden itapirense é a Usina, eu prefiro o Inferno.