Alberto Sartorelli – Newton Ramos-de-Oliveira, um pensador itapirense

Alberto José Colosso Sartorelli, 21, é itapirense e estudante de filosofia na USP - Universidade de São Paulo (Isadora Souza/Divulgação)
Alberto José Colosso Sartorelli, 22, é itapirense e estudante de filosofia na USP – Universidade de São Paulo (Isadora Souza/Divulgação)

Em meio a um projeto, fui procurar algo sobre o tradutor de um texto de Theodor Adorno chamado “A arte é alegre?”. Após rápida pesquisa a internet, descubro que o tradutor, Newton Ramos-de-Oliveira (NR.: a grafia de seu sobrenome é assim mesmo, hifenizada), é natural de Itapira, foi professor universitário, poeta, e dedicou-se aos estudos sobre educação.

Além disso (ou em decorrência), foi cassado pela ditadura. Provavelmente tenha passado discretamente pelo ambiente intelectual brasileiro, coisa que não é de toda ruim. Curioso mesmo é o fato de Newton ser totalmente desconhecido em sua cidade natal, que também é a minha. Nunca havia ouvido falar nalgum teórico crítico itapirense. Descoberta feliz, e apesar de pouco conhecer a obra de Newton, me sinto fazendo jus à História das Ideias, que não é suprassensível, e sim uma História das Ideias nos territórios.

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Newton Ramos-de-Oliveira nasceu em 1936, na rua Comendador João Cintra, número 33, na cidade de Itapira, São Paulo. Escreveu um poema sobre sua cidade natal, poema de quem conheceu muitos lugares, mas não se esqueceu de onde nasceu, do patamar de comparação, a imagem primitiva inscrita no imaginário mais profundo. Planalto contra planície, figura dialética do mar de morros.

ITAPIRA

Comendador João Cintra, no. 33
casa à beira da queda
entre o bosque as árvores e o rio
tudo escorrendo
manso e preguiçosamente
em meandros ao sol.

Comendador João Cintra, no. 33
rua de pedras areias cercas
sol claro curvas do rio
árvores árvores árvores
quedas pedras águas jangadas
vertigem.

Ah, Itapira, Itapira!
o planalto contra a planície
a tensão entre dois planos
que se contemplam se enamoram
e não se encontram.

Guardas meu sangue células poros
pelos nervos medos amores fobias
atrações e repulsões.
Guardo tua paisagem real
(e principalmente imaginária)
em meu corpo árvores árvores
pedras rios águas jangadas

De longe, nas praias do mundo
que busquei e perdi
revelo e escondo, reproduzo e destruo
(eu simples tensão entre dois planos)
a tua imagem
no silêncio do porto
no silêncio do porto.

Newton Ramos-de-Oliveira (Divulgação)
Newton Ramos-de-Oliveira (Divulgação)

Newton Ramos-de-Oliveira saiu de Itapira para estudar letras anglo-germânicas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de São José do Rio Preto, formando-se em 1960; também estudou pedagogia na UNAERP, diplomando-se em 1977, e ciências jurídicas na Faculdade de Direito de São Carlos, obtendo bacharelado em 1981. Defendeu sua dissertação de mestrado em educação na UFSCAR em 1989, e doutorado na mesma instituição, cuja tese intitula-se “A palavra partida: a formação democrática numa sociedade de classes”, de 1993, sob a orientação do Prof. Dr. Bruno Pucci. A trajetória vasta e não-cronológica demonstra a história de um homem não só de outro tempo, mas de outra formação; nunca cansara-se de aprender, de estudar, de ensinar, de escrever, de pensar.

Ingressou na carreira de docência universitária em 1962, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de São José do Rio Preto, na época instituto isolado pertencente à USP. Foi professor de didática em línguas estrangeiras – dominava o alemão, inglês, francês, espanhol, italiano e latim, além das respectivas literaturas – e, como extensão, introduzia o método Paulo Freire de alfabetização de jovens e adultos na zona rural. Foi submetido a interrogatório e cassado pela Ditadura Militar brasileira já no ano de 1964, na falsa ditabranda, fato que interrompeu sua carreira universitária. É interessante notar que só os mais “perigosos” tiveram os direitos cassados antes do AI-5, como Celso Furtado e Darcy Ribeiro. Newton foi professor de Ensino Médio e diretor de escola até 1988, quando foi anistiado e pode reassumir seu cargo como professor universitário, desta vez na UNESP de Araraquara, para onde fora transferido e mudado de gestão o antigo instituto isolado da USP em Rio Preto. Aposentou-se em 1996, continuando sua docência no ensino superior particular.

Newton Ramos-de-Oliveira destacou-se – discretamente – nos meios intelectuais por suas reflexões acerca da educação, tendo como base as obras do filósofo alemão Theodor Adorno, de quem traduziu muitos textos, sozinho ou em conjunto com o Grupo de Estudos e Pesquisa Teoria Crítica e Educação (GEP-TCE). Não foi um pensador deslocado, separado, sempre preocupando-se com questões materiais, como o ensino noturno dos estudantes trabalhadores, a inserção da tecnologia nos métodos pedagógicos e a formação – ou semiformação, devido à universalização da alienação perpetrada pela indústria cultural.

Faleceu em 2013 na cidade de São Carlos, permanecendo desconhecido em sua cidade natal. Esse texto é uma tentativa de criar algum interesse em relação à obra de Newton e de outros intelectuais itapirenses, condenados ao ocaso por se oporem ao status quo. Seu amigo e orientador Bruno Pucci, em belíssimo aforismo, tenta reconstruir uma imagem de Newton como um homem de outro tempo, preocupado com as questões profundas, sem a vulgaridade que se pode predicar dos sujeitos formados pela televisão e pela má literatura. É para nos lembrarmos que é possível viver e educar-se de outra forma, que a ligeireza do pensamento não é condicionante de uma época, e sim um imperativo da ordem estabelecida. Newton nos deixa um legado: é possível ser diferente, mesmo num mundo cada vez mais homogêneo; cultivar o espírito criticamente é resistir ao nivelamento – por baixo – da cultura.

_ “Incansável homme des lettres, amante do bem falar e do bem escrever, conhecedor de outras línguas/de outras culturas, tradutor nas horas vagas. O tempo todo brincando magicamente com as palavras, extraindo delas humor e poesia. Um anacrônico de seu tempo. Que adianta entender o latim e citar Horácio e Ovídio de cabeça?! A hora atual, dos “sofistas” das novelas e da comunicação, é-lhe mais desfavorável que nunca. No entanto ele persiste em acreditar na fecundidade do pensamento, que se expressa nos textos densos, rigorosamente tecidos, na busca sem pejo da felicidade do bem dizer e na liberdade desenfreada de não se submeter à triste realidade. Vagabundeia serenamente pelos botecos do espírito. Um compulsivo compositor de textos: faz poesias, escreve ensaios, constrói resenhas, elabora traduções. Produz de manhã, de tarde, de noite. Durante a semana e nos fins de semana. Mas gosta também de um joguinho de baralho com velhos colegas, de um papo amigo recheado de cerveja e de risos, de ler o Caderno “Mais” da Folha, de assistir a bons filmes. E de tudo isso extrai fragmentos preciosos para seus escritos e seus falares. É o exemplo supremo do diletante, daquele que ama apaixonadamente o que faz.” – Bruno Pucci sobre Newton Ramos-de-Oliveira, 2001.

Nota do Autor – agradeço imensamente ao professor Bruno Pucci (UNIMEP) e à professora Paula Ramos de Oliveira (UNESP-Araraquara), filha de Newton, pela correspondência e atenção que possibilitaram a escrita desse texto.