Elizeu se emocionou durante entrevista: "triste demais" (Itapira News)
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Há quase duas semanas o motorista Elizeu Alves Ferreira, 54, acompanha apreensivo o noticiário sobre o rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão em Brumadinho (MG). E pelas redes sociais, através de antigos contatos, se atualiza sobre amigos atingidos pela tragédia ocorrida no dia 25 de janeiro.

Residindo em Itapira há pouco mais de cinco anos, onde trabalha como motorista de ônibus, seu sentimento transcende a comoção nacional em torno do caso: Elizeu é ex-funcionário da Vale do Rio Doce e trabalhou na barragem que estourou por duas oportunidades: durante aproximadamente um ano no início dos anos 1990 e por um período de quase cinco anos entre 2008 e 2013.

Saiu de Brumadinho para morar em Itapira junto da companheira Tatiane Ferreira, 37, nascida na cidade mineira, mas que já morava no município itapirense desde criança. Pelas contas de Elizeu, ao menos 10 amigos “mais chegados”, antigos colegas de trabalho, já foram identificados entre as mais de 130 vítimas fatais do desastre.

Ele conta que assistia TV no dia 24 quando começaram a chegar as primeiras notícias do ocorrido. “Sou nascido na cidade de João Monlevade, também em Minas, mas morei em Brumadinho durante 25 anos. É uma cidade pequena onde todo mundo se conhece e toda família tem alguém que trabalha na Vale ou que conhece alguém. Não é fácil ver isso acontecendo de novo, depois de tudo o que aconteceu em Mariana”, lamenta.

Distante mais de 500 quilômetros da terra na qual deixou muitas pessoas com quem conviveu durante muito tempo, ele se emocionou ao receber a reportagem do Itapira News para falar sobre o assunto.

“Eu chorei bastante no dia, e ainda choro. É muito difícil, é triste demais. Fico me lembrando dos amigos, a gente até comentava que se um dia aquilo estourasse não ia sobrar ninguém de nós. Sei que todo mundo se comove, mas é diferente pra quem pisou aquela terra, pra quem conviveu com as pessoas que agora estão mortas ou que nem mesmo foram encontradas ainda”, disse.

Ele conta que havia falado com uma das vítimas no dia anterior, pelo Facebook, e que depois tomou conhecimento de que ele foi encontrado sem vida. “Tinha até falado que quando tirasse férias poderia vir aqui me visitar”.

Tragédia já contabiliza mais de 130 mortos (Ricardo Stuckert/Fotos Públicas)
  • LIVRAMENTO

A história familiar de Elizeu tem uma ligação bastante íntima com a barragem da mina do Córrego do Feijão em Brumadinho. Não foi somente ele que trabalhou naquela área, hoje totalmente devastada pela lama: seu filho, sua filha e seu genro também trabalhavam lá.

Hoje eles também saíram, pois montaram uma empresa própria na área de engenharia e segurança do trabalho. “Eu trabalhava como motorista no laboratório, que foi desativado em 2015. Mas em 2013 já existia essa informação, então eu saí e vim embora pra Itapira. Hoje não tem ninguém mais da minha família trabalhando lá. Vejo que foi um livramento para nós”, afirmou.

O motorista lembra que sua primeira reação ao ver a notícia sobre o rompimento foi telefonar para os filhos. “Fiquei muito preocupado, mesmo sabendo que não estavam lá. Agora fico recebendo as notícias e fotos que os amigos de lá me mandam. Ontem mesmo uma amiga me mandou um vídeo da pousada. Outra amiga nossa foi enterrada ontem. É muito triste”.

Elizeu e Tatiane: notícias sobre Brumadinho acompanhadas com muita tristeza (Itapira News)

Elizeu guarda com carinho uma fotografia da equipe do laboratório para o qual transportava amostras de minério para análise. “Todos estão bem, pois quem não saiu antes do laboratório fechar, foi demitido quando fechou. Para eles também foi um livramento, ruim por perder o emprego naquele momento, mas agora poderiam também estar entre as vítimas”.

De sua casa no Parque São Francisco, o ex-funcionário da mineradora e a esposa Tatiane também esperam que novas tragédias como estas não ocorram e que os responsáveis sejam devidamente responsabilizados. “A Vale é uma empresa muito gananciosa, isso é verdade. Eu me lembro que havia muita cobrança quanto ao uso dos equipamentos e normas de segurança dos funcionários, mas muito do que também precisava ser visto, hoje vemos que não teve essa preocupação”, finaliza.