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Um bairro rural, muitas vidas. O distrito de Barão Ataliba Nogueira, em Itapira, não só é berço de grandes histórias como também guarda muitas memórias de um tempo em que “as coisas eram muito mais mió (sic) que hoje”.

A declaração simples que atesta as mudanças trazidas pelo progresso é do aposentado Israel Cavenaghi, que aos 73 anos se apresenta como uma das testemunhas oculares de muitas das transformações vividas pelo ainda bucólico núcleo habitacional distribuído em uma área de 1.434 metros quadrados às margens da Rodovia SP-352 (Itapira-Jacutinga) e que conglomera quase 2.400 moradores em números atuais.

Na casa simples distante quase 13 quilômetros do primeiro acesso urbano de Itapira, o homem que trabalhou em fazendas e se aposentou como servidor público municipal guarda muitas memórias do bairro, seus costumes e seu povo.

Israel Cavenaghi em sua casa, no Barão: memória viva (Itapira News)

Embora não seja instituída como data oficial de fundação, o dia 15 de outubro é visto por muitas pessoas como uma data que representa o aniversário de Barão Ataliba Nogueira. É que neste dia, no ano de 1891, eram inauguradas conjuntamente as estações ferroviárias de Barão Ataliba Nogueira e de Eleutério.

Ou seja, pela conta do Seu Israel e de muitos outros moradores das redondezas, Barão Ataliba Nogueira acaba de completar seus 128 anos – 9 dias antes do aniversário de 199 anos de Itapira. “Hoje o Barão completa 128 anos de história”, declarou ao receber a reportagem do Itapira News na manhã da última terça-feira (15).

A data não é declarada oficialmente em razão da própria história da cidade, que admite registros de nascimentos em Barão já em meados de 1869. Ocorre que o simbolismo da inauguração da estação acabou fazendo com que muita gente passasse a atribuir, também à data, o aniversário do bairro, que na verdade somente seria instituído como distrito em 24 de dezembro de 1948, por força da Lei Estadual 233 – da mesma forma ocorreu com Eleutério.

TEMPOS DE MUDANÇA

O pai de Seu Israel era Natalino Cavenaghi Filho, nascido em 1907 em um sítio na região dos Forões, perto do Barão, que aos 20 anos mudou-se para o Barão. Casou-se com Sebastiana Custodio Cavenaghi, com quem teve seus filhos.

Em setembro passado, Seu Israel comemorou 53 anos de matrimônio com Emília Orcini Cavenaghi, de 72 anos e mãe das duas filhas do casal: Marcela e Marilene. Na pequena sala que guarda os retratos de seus pais, Seu Israel se lembrou, de certa maneira emocionado, da infância feliz nas ruas de “chão batido” do Barão.

“As coisas eram muito mais mió (sic) que hoje. A criançada se reunia em grandes turmas para jogar petecas que fazíamos com palha de milho. As moças e os rapazes passeavam cada um de um lado, não tinha brigas, não tinha drogas”, diz.

A casa em que mora até hoje era uma das últimas do pequeno bairro rural. “Eu me casei e já mudei pra cá”. O imóvel foi adquirido graças a um acordo com o patrão, dono de uma fazenda próxima. “Troquei pelo tempo de serviço, depois da minha casa era tudo eucalipto. Era a última do bairro”.

De comércio, segundo ele, tinha somente um armazém e uma farmácia. Depois, em 1956, veio o posto dos Correios. “E tinha a cerâmica do Abel Job”, lembra Seu Israel antes de ir buscar para exibir, orgulhoso, uma telha que guarda até hoje com a inscrição da empresa já extinta.

Mas o pensamento do aposentado voa longe mesmo quando fala do trem da Mogiana que cortava o bairro. Só não era o único transporte em razão da presença, vez em quando, de uma Jardineira. “Era de um homem chamado Jorginho de Eleutério. Mas a gente adorava o trem. Ia para Eleutério, para Jacutinga. Ia visitar familiares em Mogi Mirim. Foi muito difícil quando o trem parou de passar, quando a estação foi desativada. Fiquei muito triste”, lembra.

Era o tal do progresso chegando junto com a abertura da rodovia. A estrada de terra que ia até o Sul de Minas seria fechada tão logo o asfalto cobrisse o chão logo ali acima da casa de Seu Israel, cruzando a estradinha que levava até os Forões.

VEM A RODOVIA, VAI-SE O TREM

De acordo com Seu Israel, a chegada da rodovia no final dos anos 1970 coincidiu com o encerramento do transporte de passageiros pela linha férrea. O transporte de cargas ainda duraria mais alguns anos.

“Aí percebemos que a coisa realmente estava mudando. Aí fecharam a estrada de terra que ia até Minas Gerais. Depois vieram as primeiras casas populares, chácaras ao redor, e depois mais casas. Era o nosso bairro crescendo. E cresceu mesmo. Vi tudo isso de perto. Me lembro da fábrica de jeans, onde muitas mulheres aqui do bairro trabalharam. Agora tem as empresas grandes, a Cargill, a Estrela, que também empregam muita gente daqui”, conta o morador – hoje também um dos mais antigos do bairro.

A antiga estação de trem de Barão Ataliba Nogueira (Divulgação)

Como testemunha ocular desse progresso todo, Seu Israel também viu a chegada de obras importantes para o desenvolvimento local. A chegada da rede de energia elétrica, em 1957, a instalação do Grupo Escolar em 1959, a chegada da água tratada, em 1980 e o asfaltamento de suas ruas em 1982. “Tudo o que foi feito aqui de bom foi a família Munhoz que fez. Primeiro foi o Caetano, depois seu filho Totonho”, diz o aposentado em referência ao ex-prefeito e atual deputado José Antônio Barros Munhoz.

“E não estou falando mal, mas o único vereador que realmente fez muita coisa boa para nosso Barão foi o Geraldo Terrazan”, acrescentou. Entre as lembranças que guarda das décadas passadas do distrito, Seu Israel também garante que o bairro já abrigou até mesmo uma cervejaria – “pouca gente sabe, eu não me lembro do nome, mas era em umas terras do meu avô”, finaliza.