A campanha ‘Janeiro Branco’ cumpriu ao longo do primeiro mês do ano mais uma edição com o objetivo de jogar luz às questões da Saúde Mental no Brasil.

Entre os temas, a iniciativa também abre espaço para debates em torno do conceito de ‘psiquiatrização’, fenômeno que vem aumentando e preocupando profissionais da área.

O termo se refere à uma forma de banalização do uso de medicamentos psicoterápicos, conforme explica a psicanalista e psiquiatra Adriana Rotelli Resende Rapeli.

Entre os principais alertas está o do uso indiscriminado de benzodiazepícos – os populares ‘calmantes’, que vem registrando aumento no consumo em todo o se país, especialmente nos casos de automedicação.

O tópico inclusive foi tema do simpósio desenvolvido pela equipe do CAPSad (Centro de Atenção Psicossocial) – Álcool e Psicotrópicos de Itapira em 2019.

“A abordagem do sofrimento psíquico na sociedade ocidental nas últimas décadas vem sendo afetada por fatores de padronização de sintomas dos manuais diagnósticos, que classificam cada vez mais comportamento humano como patológico, e também a presença cada vez mais crescente dos psicofármacos na vida das pessoas”, comenta a profissional.

Adriana Rapeli fala sobre importância dos cuidados com a saúde mental (Paulo Bellini/ItapiraNews)

De acordo com ela, as pessoas recorrem aos medicamentos como formas de melhoria nas condições do sono, para obter relaxamento, aumentar a capacidade de atenção e para combater a tristeza, por exemplo.

“A medicalização dos sofrimentos emocionais, que não necessariamente são patológicos, é parte desta tendência de ver muitas questões existências como problemas psiquiátricos” relata.

De acordo com ela, muitas vezes o indevido de medicamentos começa logo na infância, quando, por falta de conhecimento, pais iniciam o tratamento dos filhos na psicoterapia com o objetivo de reprender comportamentos inadequados em vez de entender o motivo pelo qual as crianças agem dessa maneira.

  • RESULTADOS IMEDIATOS

A psicóloga Amanda Carneiro concorda e lembra que, em muitas das vezes, os pais acabam optando por medicamentos que geralmente não seriam necessários.

Isso em razão de estigmas relacionados à terapia e por buscarem resultados imediatos. “Tudo isso acontece porque falar sobre saúde mental ainda é um tabu em toda a sociedade” declara.

A profissional, entretanto, alerta que isso pode acarretar problemas gravíssimos no futuro. “Há muitas pessoas não especializadas no assunto que prescrevem medicamentos de maneira indevida a conhecidos e familiares, o que pode colocar os outros em risco, além de poder acarretar uma dependência química”, enfatiza.

De acordo com ela, o que costuma ocorrer é uma linha muito tênue entre a negação do problema e a busca por alívio imediato, sem buscar ajuda para entender o que realmente se passa.

Amanda destaca importância de buscar origem dos problemas, e não apenas tratar os sintomas (Divulgação)
  • EXPERIÊNCIA

Uma paciente diagnosticada com bipolaridade, que preferiu o anonimato, relatou as consequências que vivenciou quando, há alguns anos, interrompeu o acompanhamento psicoterápico e manteve o uso de medicamentos.

“O que aconteceu não foi apenas que eu não estava melhorando, mas até mesmo piorando. O meu quadro evoluiu com sintomas muito mais graves e, quando eu percebi, estava tomando cinco remédios diferentes por dia, entre calmantes e estabilizadores de humor”, diz.

Isso resultou até mesmo em incapacidade de cumprir as atividades diárias. “Percebi que de nada adiantaria consumir um alto nível de remédio sem entender o que estava de fato acontecendo comigo”.

  • AJUDA PROFISSIONAL

Para Adriana, a decisão de intervir com medicamentos deve ser exclusivamente do profissional devidamente capacitado para o atendimento.

“Se a pessoa tem, de fato, um problema que necessite de medicamentos, ela precisa ser acompanhada por um profissional que prescreva isso a ela. Eu defendo, sim, o uso de medicamentos, mas de maneira adequada, cuidando de um transtorno e não o banalizando”, enfatiza.

“Minha preocupação como psiquiatra que trabalha com dependências químicas no setor público e na minha prática privada é de alertar para o risco das dependências, ou melhor, o praticamente inevitável desenvolvimento da dependência psicológica quando não física”, conclui Adriana.

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