João Eduardo Torrecillas Sartori é médico, psicanalista e mestrando em Filosofia (Divulgação)
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Gradativamente, em seu desenvolvimento, a maioria dos indivíduos que integram uma sociedade é educada e socializada de modo que se inibam, neles, certos atos. Em seu ensaio intitulado “O Mal-Estar na Civilização”, originalmente publicado em 1930, Freud estabeleceu que, na maioria dos indivíduos, a inibição de certos atos se relacionaria:

1. Em um primeiro momento de seu desenvolvimento, com o medo de sua reprovação pelas suas figuras de autoridade – isto é, seus responsáveis. Este medo decorreria da sua suposição de que, caso tais atos viessem a ocorrer, aquelas figuras os reprovariam, e do fato de que não suportariam a sua reprovação por estas figuras. Isto porque esta sua reprovação seria interpretada como se implicasse a perda do amor daquelas – e, supostamente, porque a perda do seu amor seria interpretada como se implicasse a exteriorização irrestrita da agressividade das figuras de autoridade sobre aqueles, como forma de castigo por seus atos supostamente repreensíveis.

No entanto, nesse primeiro momento de seu desenvolvimento, os mencionados indivíduos podem agir contrariamente àquilo que supõem ter sido preconizado pelas suas figuras de autoridade, não sentindo remorso por alguns de seus atos desde que estes ocorram de modo a não serem notados pelas mencionadas figuras.

2. Em um segundo momento de seu desenvolvimento, com o medo do “supereu”, uma instância que, no indivíduo, exerce uma coerção [sobre o próprio indivíduo]. Este medo se relacionaria com o remorso que incidiria no indivíduo caso este intencionasse agir, em determinada situação, contrariamente àquilo que fora internalizado como correto.

Nesse contexto, o remorso ocasionado pelo “supereu” poderia incidir no indivíduo não somente em decorrência de seus atos que contrariassem os imperativos – isto é, ditames – daquele, mas também de seus pensamentos que os contrariassem.

Por outro lado, ainda no ensaio mencionado, Freud estabeleceu que a não exteriorização de parte da agressividade de um indivíduo sobre outros indivíduos aumenta a intensidade do “supereu” no próprio indivíduo. Neste sentido, a não exteriorização de parte da agressividade de um indivíduo sobre outros indivíduos aumentará o seu sentimento de remorso.

Contudo, no mencionado ensaio, Freud estabeleceu a inexistência de uma relação de “causa-e-efeito” entre a intensidade do “supereu” de um indivíduo e a severidade da educação deste último por seus responsáveis em sua infância. Nesse contexto, o “supereu” de uma criança que foi educada de modo mais severo não será, necessariamente, mais intenso.

Inclusive, Freud estabeleceu que, comumente, o “supereu” de uma criança que tenha sido educada de modo menos severo é mais intenso. Provavelmente, uma parte de sua agressividade não é exteriorizada e, assim, direciona-se ao próprio “eu”, aumentando a intensidade do “supereu” deste último.

Nesse sentido, para que, em uma criança, o “supereu” não se constitua de modo excessivamente intenso, certas exigências deverão ser feitas a ela. Assim, às crianças e aos adolescentes, devem ser impostos certos limites contra os quais poderão se rebelar. Neste contexto, para que uma criança possa se desenvolver de modo que o sentimento de remorso nela não venha a ser excessivo, deverá ter sido criada de modo que seus responsáveis tenham exercido, sobre ela, uma autoridade – o que, desde já, não implicará autoritarismo e agressão sobre ela.

A atualidade da mencionada obra freudiana se verifica justamente no contexto da constatação de que, nas sociedades industriais contemporâneas, muito comumente, certos indivíduos, temendo a perda do amor dos indivíduos por quem são responsáveis, não têm exercido autoridade sobre estes últimos – isto é, não têm imposto limites a estes últimos e/ou não têm sustentado uma imposição de limites a estes últimos. E o não exercício de autoridade sobre uma criança comumente se implica em um desenvolvimento desta que lhe ocasione um “supereu” intenso e, neste sentido, um remorso excessivo, esta criança sentindo, não que experiência uma liberdade significativa, mas, sim, que não é amada por seus responsáveis.

João Eduardo Torrecillas Sartori é médico,
psicanalista e mestrando em Filosofia