Laura Vomero – Dos cegos e surdos aos ex-mudos, o eco da voz secundarista

Laura de Souza Zingra Vomero, 22, é itapirense e reside em Campinas, SP, onde estuda Psicologia na PUC. Possui grande atração pela área da Psicologia Escolar, passando por experiências em educação formal, onde atuou em uma escola estadual, e em educação não formal, atuando em uma ONG. Estagia também no atendimento clínico pelo SUS, no Hospital e Maternidade Celso Pierro (Divulgação)
Laura de Souza Zingra Vomero, 22, é itapirense e reside em Campinas, SP, onde estuda Psicologia na PUC. Possui grande atração pela área da Psicologia Escolar, passando por experiências em educação formal, onde atuou em uma escola estadual, e em educação não formal, atuando em uma ONG. Estagia também no atendimento clínico pelo SUS, no Hospital e Maternidade Celso Pierro (Divulgação)

Nesse período de movimento secundarista que estamos vivendo ouvi muitas pessoas que são contra a ocupação questionarem se os alunos que estão ocupando a escola prestam atenção nas aulas, estudam em casa, não faltam ou fenômenos parecidos. Além, também, de me deparar com argumentos dos tipos que esses alunos são desinteressados, não querem nada com nada e que se antes não iam às aulas, por que agora querem ocupar a escola.

Eu acho que a resposta está escancarada nesse último ponto. Os alunos não frequentavam (sem generalizar) e agora estão ocupando. Logo, a escola não estava funcionando como um ambiente agradável para os mesmos, os quais estão resistindo por transformação e qualidade. É fácil saciar nossas necessidades e esquecer que são pré-adolescentes e adolescentes, e que estão abrindo mão de suas próprias necessidades para uma causa maior, abrangendo para transformações nas vidas de outras pessoas.

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É extremamente egoísta descartar todos os fatores multideterminados que vivem esses secundaristas pelo fato de não quererem frequentar a escola, a qual acha mais fácil problematizar o aluno e chamá-lo de desinteressado, ao invés de olhar para dentro de seus muros e procurar o erro. É válido ressaltar aqui que não se deve problematizar somente o professor, ou qualquer outro profissional, pois a instituição é uma só, e se existe falha em algum ponto da escola, ela toda se encontrará desiquilibrada. Entendo como egoísmo dessas pessoas também o fato de descartarem os fatores multideterminados que fazem com que esses alunos ocupem a escola, como por exemplo, não quererem assistir aulas com classes superlotadas, terem que passar a estudar em escolas distantes de seus lares ou terem que se adaptar a uma nova metodologia, entre outros muitos fatores.

Outro fenômeno com o qual me deparei, foi com o fato de alguns professores, entre outros profissionais das instituições, insatisfeitos pelos alunos não realizarem a prova do SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar de São Paulo), pois os mesmos trabalharam árduo durante o ano para prepararem os secundaristas para a avaliação. Chega a ser cômico tanta falta de conscientização de alguns profissionais acerca do método falido que é essa prova. É desumano tê-la como método de avaliação da qualidade do ensino, descartando novamente todos os outros fatores que estão inseridos no contexto social dos alunos, como seu desempenho e participação em sala de aula, por exemplo. Além de padronizarem os educandos através de medidas, estão sucumbindo totalmente o sentido da palavra avaliação. O trabalho dos professores acaba se tornando desvalorizado pelo fato de não valer o esforço anual no desempenho de cada aluno, pois os mesmos são padronizados, além de não poderem ter acesso e uma devolutiva acerca da prova.

 Mas será que realmente é falta de consciência ou interesse individual? As escolas que tiveram boas medidas recebem bônus maiores, por quê? Não era pra ter um investimento maior nas escolas que se encontram em situações piores? Na verdade a palavra bônus já se diz por si. Não é um investimento, e sim apenas um reforço com finalidade de estimular as escolas a atingirem medidas elevadas irreais, desta maneira garantindo os investimentos internacionais na educação estadual. Imagino a pressão que sofrem professores e coordenadores pelos seus diretores, supervisores e pela Secretaria Estadual de Educação, até porque vivenciei muitos secundaristas sofrendo ameaças caso a prova fosse boicotada ou a escola ocupada. Falando em golpe mais baixo ainda, presenciei as marionetes do governo jogando pais contra estudantes, professores contra professores e estudantes, e até estudantes contra estudantes.  Nesse contexto, os alunos podem pagar um preço alto para que alguns interesses individuais sejam conquistados.

O governo quer cortar gastos onde deveria ter investimentos, e tem gente ainda que acredite que tantos problemas estruturais possam ser resolvidos caso os alunos estudem e se empenhem em escrever cartas para a Secretaria de Educação do Estado para que providências sejam tomadas. Seria ingenuidade ou má fé? Está muito claro que não há interesse algum em assegurar uma educação de qualidade, muito pelo contrário, o interesse é deixar essas pessoas cada vez mais alienadas almejando estagnação na pirâmide social, ou dizendo em outras palavras, não querem movimentação de classes, contribuindo para consolidar a desigualdade social. A política de reorganização serve apenas como mais um obstáculo para a formação desses jovens, destruindo sonhos e escurecendo consciências. A própria prova do SARESP reflete o interesse de alienação nos educandos, cobrando predominantemente as matérias de língua portuguesa e matemática, sendo as aulas que mais preenchem a grade curricular, deixando em segundo plano, matérias que estimulam o pensamento crítico nos alunos, como história, filosofia e sociologia.

É fácil falar em direitos quando não é o seu que está sendo invadido. Por isso, dou todo o meu apoio aos secundaristas, ficando emocionada em contemplar o quão horizontal esse movimento se encontra. Pude ouvir relatos de educandos falando que essa ocupação serviu para a aproximação e fortificação de suas pessoas. A experiência que eles estão vivenciando não tem uma aula que ultrapasse esse aprendizado, o qual promove à coletividade, a ampliação de consciência, a autonomia e acima de tudo o respeito pelo próximo e pelas suas necessidades sem hierarquia, mas sim através da igualdade. Muita força e resistência a esses jovens do estado de São Paulo.