Dona Antônia agora é voluntária na Ascorsi (Paulo Bellini/ItapiraNews)
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Considerada a ‘mãe’ das Ascorsi (Associação dos Coletores de Resíduos Sólidos de Itapira), Antônia Rodrigues dos Santos se desligou como associada da instituição que ajudou a fundar.

Desde o fim do ano, ela se tornou voluntária, continuando a atuar na associação, porém, sem o vínculo oficial no quadro de associados.

O motivo é que, em decorrência do falecimento do esposo, Dona Antônia passou a receber pensão – situação que exige o desligamento conforme estatuto que rege a Ascorsi. De origem humilde e com reconhecida força e capacidade de liderança, Dona Antônia deu o primeiro passo na direção do que seria a Ascorsi ainda em meados de 2003.

Catadora de materiais recicláveis, ela foi uma das pioneiras na cidade e se organizar para formar uma associação que tivesse um local para armazenar os materiais recolhidos das ruas para posterior venda.

“Assim como eu, muita gente pegava materiais recicláveis e guardava em casa. Era muito sofrido. A gente ia separando e armazenando. Mas tinha o problema de espaço, e também de questões legais por conta do acúmulo desses resíduos, que atraiam insetos, e gerava pressão de vizinhos. Foi até que resolvi iniciar esse movimento, junto de mais algumas pessoas na época, para lutar por um local em que pudéssemos guardar e separar tudo até vender”, lembra.

Luta para criar modelo cooperativo começou ainda em 2003 (Paulo Bellini/ItapiraNews)

O início de tudo veio com a formalização do Projeto Renascer, oficialmente lançado no dia 1º de maio de 2004. “Tinha muito gente na mesma situação que a minha. A venda dos materiais era nossa única fonte de renda. Era uma situação de muita vulnerabilidade social. Quando conseguimos formar a cooperativa, eu fiquei eufórica. Até então eu só via isso na televisão”, diz.

A primeira sede foi na região da Vila Penha do Rio do Peixe, próximo à Rua Jacob Audi. Depois, o projeto precisou sair para dar lugar à construção da nova escola Sesi. Dona Antônia conta que, depois disso, o projeto passou por um período de menor atenção por parte do Poder Público local.

Era preciso se organizar melhor para ter garantido o devido reconhecimento e a importância das atividades. Foi aí que, em 2006, entraram em cena os representantes da Rede Social Itapira, movimento ligado ao Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), que passou a prestar todo o suporte para que o grupo, de fato, se formalizasse.

Foi assim que nasceu a Ascorsi. Foram vários anos para configurar todo o trabalho dentro de uma verdadeira associação, com diretoria e quadro de associados, com responsabilidades e direitos devidamente estabelecidos, e poderes legais para firmar parcerias e convênios. “Fomos conhecer outras cooperativas, outras associações, passamos por capacitações e cursos. Em 2011 mudamos para um barracão da Rua da Penha. Não era ainda o ideal, mas já era bem maior”, salienta Dona Antônia.

Ao longo dos anos, Ascorsi ganhou força e ampliou trabalho (Paulo Bellini/ItapiraNews)

Foi neste mesmo ano que a Coleta Seletiva foi implantada em Itapira, em uma parceria entre a Prefeitura e a Ascorsi. Durante toda sua permanência na Ascorsi, Dona Antônia sempre ocupou cargos na diretoria. Ao longo de sete anos, ficou como presidente. Entre as dificuldades, ela destaca que os próprios associados – outros coletores de recicláveis – não queriam assumir cargos na diretoria, por desconhecimento de como a associação deveria funcionar.

Isso foi mudando ao longo do tempo, conforme o trabalho foi ganhando proporção e a Ascorsi foi ficando conhecida. Atualmente, a Ascorsi é presidida por Joana Teófilo Soares, outra remanescente da época da fundação do projeto.

Ao longo de todos esses anos, a associação foi conquistando cada vez mais espaço. Chegou a ser contemplada em um edital da Petrobrás, ampliou o trabalho de coleta em praticamente todas as regiões do município – incluindo área rural – e ganhou uma nova e ampla sede na Rua Fenízio Marchini, inaugurada em 2014.

Agora na condição de voluntária, Dona Antônia chega a se emocionar ao relembrar toda a luta frente à Ascorsi. “Se eu gostasse de escrever, escreveria um livro”, brincou durante a entrevista concedida ao Itapira News, ao lado da equipe técnica da associação, composta por Brenda Brianti (educadora ambiental), Carlos Fiorillo (assistente administrativo) e Silvia Elaine Santos (assistente social).

Associação é responsável pela Coleta Seletiva Solidária (Paulo Bellini/ItapiraNews)

Em uma época em que se falava bem menos de empreendedorismo e na qual o empoderamento feminino ainda era tratado como um grande tabu, a mulher negra, de origem pobre e sem estudo encabeçou um trabalho que mudaria o rumo de sua e de outras famílias.

Agora sem o vínculo direto com a associação, Dona Antônia, que não teve filhos, ainda vê a necessidade de muitas conquistas para sua ‘cria’. “A galinha botou os ovos e os chocou. Agora os pintinhos precisam crescer”, diz a mulher que mesmo diante de tantas dificuldades ao longo da vida sempre se mostra sorridente e bem-humorada. “Tenho muito amor por esse povo. Vou fazer de conta que sou a mãe de todos eles e continuar ajudando como puder”, finaliza.