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O número de casos de suicídios registrados oficialmente em Itapira atingiu níveis alarmantes neste ano. A estatística chegou a 18 registros na última quinta-feira (7) – dia em que mais duas pessoas decidiram ceifar suas próprias vidas. O primeiro foi um jovem de 27 anos, residente na região do Bairro dos Prados, que se matou com um tiro da cabeça. O segundo caso do dia foi na Vila Ilze, onde uma mulher de 54 anos se enforcou.

No fim de novembro, um homem de 55 anos também cometeu suicídio com disparo de arma de fogo. Antes disso, outros casos já vinham engrossando as estatísticas e provando choque, tristeza e preocupação na sociedade local. Autoridades também se mostram espantadas com o número crescente de casos. Segundo apurado pela reportagem, ao menos nas duas últimas décadas o saldo de suicídios anual nunca atingiu o mesmo patamar atual. O saldo de suicídios em Itapira pode ser ainda maior, já que em alguns casos o registro policial é feito como morte suspeita.

Dos 18 casos acumulados em 2017, a maior parte ocorreu no segundo semestre. Há teses, inclusive, que apontam que os últimos meses do ano – em especial os períodos festivos de Natal e Ano Novo – são os que costumam concentrar aumento nos registros. Os casos registrados até agora em Itapira ocorreram, via de regra, em âmbito domiciliar dos suicidas. Em praticamente todos os casos, a decisão adotada provocou choque em amigos e familiares, já que os indivíduos não aparentavam sinais de depressão ou problemas que pudessem motivar tal ato drástico.

Fonte: Ministério da Saúde

O aumento dos casos em Itapira parece seguir uma tendência não só nacional, mas também mundial. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, o índice cresceu entre nos últimos anos, com o suicídio ocupando o quarto lugar no ranking das causas de morte entre jovens de 15 e 29 anos. Ainda de acordo com o Ministério, os homens apresentam as maiores taxas de mortalidade – 79% do total.

Considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública, o suicídio tira a vida de uma pessoa a cada hora no Brasil, mesmo período no qual mais três tentam se matar sem obter sucesso, segundo dados estatísticos. No Brasil, são cerca de 11 mil casos por ano. Em nível mundial, o problema também é crescente. Atualmente, são registrados 800 mil suicídios por ano. Nos Estados Unidos, por exemplo, recentes casos envolveram até mesmo crianças e adolescentes com 10 e 13 anos, que se enforcaram.

Ainda segundo o Ministério da Saúde, cidades que contam com Caps (Centro de Atenção Psicossocial) – como é o caso de Itapira – conseguem reduzir em até 14% o risco de suicídio. Até por isso, a intenção do governo é criar um Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio, levando esse tipo de estrutura para os municípios que ainda não contam com o serviço. A OMS (Organização Mundial da Saúde) quer reduzir o número de suicídios em 10% até 2020.

SINTOMAS E TABUS

A questão do suicídio ainda é considerada um tabu. Muitas pessoas com desejo suicida acabam não procurando ajuda justamente por acreditar que suas razões não serão levadas a sério. “Infelizmente ainda temos preconceito sobre a psiquiatria e psicologia, as pessoas não buscam ajuda por vergonha, para não demonstrar fraqueza, a grande maioria das pessoas não leva as doenças mentais a sério e a prevenção não é tratada de forma correta”, diz a psicóloga Talita Bressiani Jugni. De acordo com ela, a questão também não está ligada somente a doença mental não tratada. “Pode ser esquizofrenia, estresse pós-traumático, depressão, transtorno bipolar, entre outros, e também pode ser de forma impulsiva, num momento de crise e a pessoa não consegue lidar com tamanho sofrimento. E para essas pessoas que estão com um sofrimento intolerável, tirar a própria vida é a única solução que tem em mente, pois não conseguem pensar em outra saída”, alerta.

Ainda segundo a psicóloga, é preciso que a família fique atenta a determinadas características que podem indicar um comportamento suicida, como tristeza excessiva e isolamento, além de alterações no comportamento. De acordo com Talita, em determinadas situações de depressão e ansiedade, há melhora aparente no quadro após um tempo, mas esse também pode ser um sinal do desejo suicida. “Aparentemente, a pessoa se acalma, fica mais tranquila e a família pode pensar que é uma melhora, mas isso também pode ser um sinal do pensamento suicida. Por fim, há também as ameaças, quando o indivíduo sempre expressa desejo de morrer, fala de morte e muitas vezes a família confunde esse diálogo com drama, mas essa é hora de procurar ajuda psicológica”, completa.

No entendimento da psicóloga, o trabalho de prevenção deve ser de responsabilidade tanto do Poder Público, quanto da família. “A contratação de mais psicólogos para a rede pública de saúde é importante, pois a maioria das pessoas não tem condições de pagar por tratamentos. E todos nós devemos demonstrar afeto e empatia com a pessoa que sofre, pois ela se sente sozinha e isolada. Devemos perder o medo de nos aproximar das pessoas e oferecer ajuda, você não precisa dizer nada, o mais importante nesse caso, é ouvir o que a pessoa tem a dizer. É importante sensibilizar a sociedade de que não há nada de errado e em procurar ajuda, todos nós sofremos, somos humanos e temos sentimentos”, finaliza.

Organizações de apoio

Fundado em 1962, o CVV (Centro de Valorização da Vida) mantém um importante trabalho de apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar. O sigilo é garantido e há diferentes ferramentas disponíveis às pessoas necessitadas: telefone, e-mail e chat, por exemplo, 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Trata-se de um problema que se pode prevenir na grande maioria das vezes e esse é um dos maiores esforços do CVV. O estudo e a discussão do tema suicídio é uma das formas mais eficientes de se promover a prevenção, pois esta só é possível quando a população, os profissionais da saúde, os jornalistas e governantes têm informações suficientes para conduzir as medidas adequadas e ao seu alcance nessa frente. O CVV assumiu como tarefa, desde a sua criação, estimular essa discussão, ação esta que passou a merecer mais empenho nesses últimos anos”, informa o órgão.

Em recente entrevista, um dos fundadores do CVV, Jacques Conchon, destacou que a sociedade ainda precisa aprender a ouvir melhor as pessoas. “Nós ainda vivemos num mundo de surdos. Quando uma pessoa tem um abalo forte interior, que a descompense a ponto de pensar em suicídio, ela clama por socorro. E são poucos aqueles que se dispõem a ouvi-la. Muito sequer sabem interpretar o apelo. Então, passam direto, se negam a uma conversa mais próxima, ou então, minimizam a dor com frases feitas como ‘deixa disso’, ‘isso é bobagem’, ‘tamanho homem com esse tipo de coisa’. Vivemos ainda num mundo de surdos”, disse. A ABEPS (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio) também reúne informações importantes sobre o tema – inclusive sobre os mitos e verdades acerca do assunto. Acesse também o boletim completo sobre suicídios no Brasil do Ministério da Saúde.

Busque ajuda!

Saiba como agir quando alguém apresentar sinais de comportamento suicida:

– Não deixe a pessoa sozinha.

– Remova álcool, drogas, medicamentos ou objetos afiados que possam ser usados em uma tentativa de suicídio.

– Procure ajuda médica. Leve a pessoa a um pronto atendimento ou busque ajuda de um especialista em saúde mental.

– Faça contato com o Centro de Valorização à Vida pelo telefone 141 (ligação gratuita) ou pelo e-mail: [email protected].