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Falar de liberdade, hoje, neste mundo é extremamente complexo. Mesmo assim, arrisco-me, com a intenção que meu olhar possa de alguma forma contribuir com seu ângulo de visão quanto ao tema, mas certo de que não serei libertador. Nada neste universo é mais procurado que a liberdade. Ela é o real sinônimo da felicidade.

A partir dela não temos mais dependência sobre nada, tomamos os rumos que achamos conveniente. Todo esse pensamento que segue se deu na experiência de assistir seguidamente três filmes, encontrando encadeamentos e perspectivas que me instigaram. Faço a seguir a relação de filmes que, em épocas diferentes, trouxeram à tona tal reflexão.

O primeiro DVD que assisti na minha vida, num notebook da época, por volta de 2001, foi de fato muito marcante para mim. Como se não bastasse, o filme faz parte desta trilogia, do diretor Frank Darabont. ‘Um Sonho de Liberdade’ conta a história de presidiários, baseado num livro de Stephen King.

Voltando mais no meu tempo, quando tinha meus 13 anos, um professor questionou quem tinha mais liberdade, um presidiário, ou nós, alunos. A resposta da massa foi: claro que nós, alunos! E a resposta correta eram os presidiários. Como?

O professor ternamente explicou: vocês estão aqui por imposição de seus pais (afinal não foi escolha nossa a escola que frequentávamos), para sair da sala precisam me pedir permissão, para sair da escola precisam de ainda mais permissões. Primeiro devem ter a minha, para buscar o coordenador, este vai falar com diretor e depois com os pais de vocês para saber se podem sair.

Estão todos de uniforme, uma roupa imposta ao uso dos alunos, se vier sem uniforme não frequenta as aulas. Todos usam a mesma apostila, exigida por mim para estudar. Saindo daqui, nas casas de vocês, passam a viver sobre as regras da casa que não participaram na elaboração, apenas as obedecem e dependendo dos meios que frequentam, tem que se adaptar às diferentes regras que lá existem para ter o mínimo de aceitação.

O presidiário, apesar das restrições que já conhecemos, está preso a menos convenções e regras que vocês e por isso tem liberdades a mais. Acho esse raciocínio muito pertinente, especialmente na época da segunda metade dos anos 80. Ele ainda tem sua lógica, mas precisa de adaptações, serve para citarmos Focault em suas comparações de escolas e presídios, da sua arquitetura e formulação de regras à forma como se realizam as aulas ainda no formato Franciscano em nosso sistema de ensino convencional.

Retomando ao primeiro filme dessa trilogia, nós presenciamos como o personagem principal busca, através da sua relação com os guardas e diretor do presídio, ofertar momentos de liberdade dentro da prisão. Nenhum dos momentos que ele proporcionou estava relacionado à fuga daquele local. Foram sensações que permitiam experimentar o gostinho de ser livre , mesmo estando preso.

Primeiro ele consegue um momento de descontração após um serviço pesado na laje de um prédio, oferecendo cervejas geladas aos companheiros presos.  No segundo momento, ele submete todos do presídio à contemplação de uma ária de Le Notze de Fígaro de Mozart, que consegue deixar tocando no sistema de som do presídio.

Por último e mais importante, ele consegue ampliar a biblioteca local. Os presos passam a ter mais opções de livros, inclusive de estudar e conseguir graduações de ensino formal. Percebemos elementos da liberdade aí citados como a contemplação, a reflexão, a arte e o conhecimento. Em um determinado momento este personagem tem a chance de provar sua inocência do crime que o levou à cadeia injustamente, mas como o diretor do presídio dependia dele para seu esquema de corrupção, conspira para eliminar por completo suas chances de um novo julgamento.

Neste trecho o diretor do filme fez uma menção ao livro que encadeia todos os três filmes desta reflexão. De Alexandre Dumas, o ‘Conde de Montecristo’ é citado e demostrarei como passa a ser o sistema nervoso desta trilogia que encadeei.

O segundo filme que me trouxe a esta reflexão foi do diretor Kevin Reynolds, ‘O Conde de Montecristo’, baseado na obra do já citado Dumas. O filme conta a história de Edmond Dante, que vai preso injustamente no Castelo Diff na França, pós-napoleônica, por capricho de um promotor que evita incriminar seu próprio pai, em conluio com o pretenso melhor amigo de Dante, que invejava o amor de sua noiva.

Em pleno isolamento na prisão (mesmo ambiente do primeiro filme citado) ele só tem contato com seus carcereiros quando jogam a comida no prato por uma portinhola na porta da cela, ou quando ele completa o ciclo de um ano preso. Como prêmio pelo período de estadia Dante é açoitado. Assim como no primeiro filme a pessoa que planeja a fuga daquela prisão tenta cavar túneis que levem para fora do castelo.

Quando Edmond foge, relativamente livre, torna-se prisioneiro do sentimento de vingança contra os que conspiraram para sua prisão. Seus lampejos de liberdade se deram justamente dentro do Castelo Diff, no tempo em que seu companheiro de fuga, um padre, lhe oferece o conhecimento nos diversos segmentos da vida, inclusive na sua alfabetização.

Por último, mas não menos importante, o terceiro filme que assistimos neste dia foi o filme escrito pelas irmãs Cohen, ‘V de Vingança’, baseado nos quadrinhos de Alan Moore e David Loyd. Este filme mostra uma Inglaterra tomada por um governo autoritário, que utiliza da televisão e da mídia em geral para mentir e aterrorizar a população.

Com medo, a população acredita que a saída segura à sua sobrevivência é eleger este governo rígido, que impõe regras tais como toque de recolher e restrições de acesso à cultura. O personagem central, o V, tem uma meta de vida: vingar-se das pessoas que trataram a ele e a muitos outros, como cobaias de experimentos de medicamentos.

Ele conquista uma parceira, a jovem IVI, cujos pais foram vítimas da violência do regime autoritário, criada num reformatório. No filme, V faz IVI passar os mesmos momentos difíceis que viveu nos tempos que foi prisioneiro e cobaia tentando sensibilizar a jovem, ainda confusa, presa na educação que teve dentro de um reformatório do governo.

Uma grande citação cênica da história do ‘Conde de Montecristo’, que aliás é o filme preferido do personagem V, sendo citado algumas vezes no decorrer da história. Todo aquele conhecimento é absorvido e a história permeia um conflito entre estes personagens, pois IVI não tem o mesmo sentimento de vingança instaurada em seu ser como tem o personagem V. Numa elipse de um ano ele reencontra em IVI, uma pessoa transformada e que o faz refletir quanto aos sentimentos de vingança.

Seus propósitos passam então a ser menos individuais e mais coletivos ao final de sua saga, deixando a cargo da sua ‘aprendiz’ a decisão sobre a explosão do parlamento inglês. Portanto, seja pela vida de uma pessoa como foi com Edmond Dante, pelo grupo de presidiários de Shawshank, ou pela população de um país inteiro, a busca pela liberdade é árdua, complexa e nos deixa confusos sobre até onde podemos intervir.

Falo intervenção porque muitas pessoas não se sentem presas ou impedidas de suas capacidades ou vontades. Muitas pessoas acreditam estar livres, se não felizes, acreditam que estão no caminho da felicidade. A distância de nossos horizontes está estritamente ligada à capacidade que temos de alongá-los. A ferramenta para que essa distância seja ampla e cresça dia após dia é nosso conhecimento.

Não apenas o acadêmico, formal da escola, mas o da vida e das vidas, do mundo e dos mundos, o conhecimento que a nossa vã filosofia ainda não decifrou por completo, que ainda é objeto de estudo. O que é claro que tudo depende também da qualidade dos momentos em que vivemos, compartilhamos e usufruímos das essências daqueles com quem convivemos, sejam eles conhecidos ou não.

Todos estes personagens viveram tragédias. Nós vivemos tragédias. Todos lidam com as diversas nuances da personalidade humana: as boas e a ruins. Nós também diariamente enfrentamos dificuldades e alegrias. Temos que ser menos individualistas e ampliar nossas conexões. Essa troca gratuita de experiências poderá, algum dia, em alguma era qualquer, favorecer o nosso entendimento. Só mesmo nesse momento glorioso, poderemos de alguma forma refletir que não seremos jamais livres, plenamente falando. Essa conclusão não vai nos afetar, ela será absorvida de maneira leve e serena, sem o temor que carrega quando pensamos nisso agora.

Ricardo Pecego é ‘doutor em ciências ocultas, filosofia dramática, pediatria charlatânica e astrologia eletrônica’. Fale com o autor do artigo via e-mail.