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Um dos cães abandonados foi deixado preso ao registro, com bilhete preso ao pescoço (Reprodução/Uipa)
Um dos cães abandonados foi deixado preso ao registro, com bilhete preso ao pescoço (Reprodução/Uipa)
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Quase cinco meses após a Prefeitura decretar intervenção municipal na Uipa (União Internacional Protetora dos Animais), a comissão que administra a entidade enfrenta um novo e grave problema: o abandono de animais em sua sede, na Rua Celencina Caldas Sarkis, no Jardim Raquel.

Os casos de cães literalmente largados na instituição têm sido frequentes e revelam situações cruéis, além da irresponsabilidade dos autores. “Alguns animais são jogados nas dependências da Uipa, outras vezes as pessoas os amarram nas árvores (próximas à sede) ou nos portões”, comenta uma das integrantes da comissão interventora da Uipa, a engenheira ambiental Vivian Maria Guerreiro, 24.

Na maioria das vezes, diante da impossibilidade de identificar as pessoas que abandonaram os animais – ato que configura crime previsto em legislação sobre atividades lesivas ao meio ambiente – a Uipa acaba por recolher os animais, mesmo com a limitada capacidade de atendimento. “A maioria, ou quase que a totalidade dos animais abandonados está doente ou muito machucada, e os tratamentos são caros e exigem recursos humanos, técnicos, e de espaço físico que não possuímos”, frisa Vivian. “As pessoas precisam entender que ter um animal é um ato sério e de muita responsabilidade, que exige dedicação e envolve custos, que os animais não podem ser descartados quando ficam doentes ou velhos”, completa.

O problema passou a ser mais frequente a partir de fevereiro, quando os voluntários e interventores da Uipa passaram a divulgar mais suas ações frente aos animais abrigados na instituição. “Infelizmente, o abandono é parte do cotidiano da Uipa. Quando fazemos um acolhimento, procuramos dar o melhor para os animais, dentro de nossos limites. Recusamo-nos a recolher animais que não teremos como dar a devida assistência”, afirma a interventora.

Em uma das situações, por exemplo, um cão foi amarrado na árvore em frente à Uipa, com um bilhete preso ao pescoço. “Por favor cuide dele por que eu não tenho condições financeiras ele está muito doente agradeço de coração que Deus ilumine o coração de cada um de vocês agradeço obrigado (sic)”, diz o texto escrito em uma folha de caderno. O cão foi acolhido e está passando por tratamento de quimioterapia, e em breve estará disponível para adoção.

Paralelamente aos casos de abandono, ela também lamenta o fato de que pessoas com mais posses também estão recorrendo à Uipa para se desfazer de seus animais, teoricamente, de estimação. “O mais absurdo é que existem pessoas conhecidas na cidade, que têm recursos, e procuram a Uipa para deixar seus animais, com inúmeras justificativas, como falta de tempo ou de espaço, entre outras. Também é comum recebermos ligações para que recolhamos cães agressivos de várias raças, entre eles cães pitbull e rottweiller. Não temos canis suficientes para abrigar tantos animais. Fizemos reformas básicas nos canis existentes para torna-los mais seguros, mas não são suficientes, e também não temos funcionários treinados para lidar com esses tipos de animais, não podemos expor os funcionários e os outros cães a esse tipo de risco”, enfatiza a engenheira ambiental.

De acordo com ela, toda a comissão está empenhada em trabalhar veementemente no que chamam de “blindagem” da Uipa no tocante a essas situações. “Temos que dedicar nossos poucos recursos aos que realmente precisam. A Uipa deve ser a última opção para um animal, e (o ato de) simplesmente deixar um animal (na sede) caracteriza-se crime de abandono e o proprietário pode responder por isso”, alerta. “Não temos pessoas suficientes, nossa estrutura física é muito precária, financeiramente temos muitas limitações, e entendemos que mesmo com todas essas dificuldades, nossos esforços devem ser direcionados para acolher os animais realmente necessitados, que não possuem nenhum responsável, ou então para ajudar famílias em situação econômica vulnerável, que possuem dificuldades para tratar de seus animais, mas que não querem abandoná-los”, explica Vivian.

ASSISTÊNCIA

Vivian afirma que instituição não tem condições de recolher mais animais (Leo Santos)
Vivian afirma que instituição não tem condições de recolher mais animais (Leo Santos)

A engenheira ambiental esclarece ainda que a Uipa não tem a obrigação de recolher todos os animais abandonados, tampouco se trata de uma clínica de reabilitação. “Obviamente, essas pessoas não conhecem a legislação e nem a realidade da Uipa. Somente eu recebo, em média, cinco ligações por dia de pessoas que querem que recolhamos os animais, ou que verifiquemos denúncias de maus tratos”. Nos casos de averiguação de denúncias, segundo Vivian, os interventores e voluntários contam com o apoio da Polícia Militar ou da Guarda Civil Municipal. As vistorias são feitas com veículos próprios. “Sempre que possível, ajudamos. Mas, este é um trabalho voluntário para tentar ajudar os animais, mas a responsabilidade é de cada um, da sociedade civil e do Estado”, complementa.

De acordo com Vivian, sempre que a entidade consegue identificar o responsável pelo animal abandonado, o mesmo é notificado para que reassuma a posse e oferte a devida assistência. “Caso isso não aconteça, é feito um boletim de ocorrência e o caso passa a ser investigado. Infelizmente, a maioria dos animais acaba ficando mesmo na Uipa, mas as pessoas que cometeram o abandono são acionadas. Entendemos que enquanto as pessoas não começarem a responder pelo crime de maus tratos não haverá mudança de comportamento”, enfatiza.

Atualmente, a Uipa concentra perto de 120 animais adultos e 12 filhotes. A imprecisão dos números tem por motivo a constante chegada e saída de animais. “Alguns chegam tão doentes que acabam falecendo. Outros são adotados”, ressalta Vivian. Em vez de abandonar, as pessoas que precisam de ajuda referente à posse e cuidados com os animais devem procura orientações junto à Uipa. “Sempre que somos procurados por pessoas que realmente precisam, fazemos um levantamento da situação que inclui visita à residência e, caso seja possível, oferecemos assistência veterinária. Há uns dias, um senhor nos procurou, chorando e com um cão muito idoso nos braços. Disse que não tinha condições de cuidar do animal, mas que não queria abandoná-lo. Verificamos que a situação realmente era muito crítica e, felizmente, tivemos como ajudar. O cachorrinho foi recolhido para tratamento pela médica veterinária Regiane Formigari (que também faz parte da comissão interventora), e posteriormente iremos devolvê-lo ao dono”, ilustra. Já casos de maus tratos podem ser denunciados diretamente aos voluntários da Uipa, ou às forças de segurança pública. “Sempre que possível, vamos até o local e orientamos o proprietário. Caso não haja melhora, formalizamos a denúncia ao Ministério Público”, conclui Vivian.