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Radicado no Rio Grande do Sul há 23 anos, um padre itapirense vivencia praticamente no ‘olho do furacão’ toda tragédia que acomete o povo gaúcho.
O pároco Wilson Luiz Galizoni Júnior, 62, há dois anos está à frente da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Canoas, uma das cidades da região metropolitana de Porto Alegre mais afetadas pelas enchentes que provocaram mortes e desabrigaram milhares de pessoas em todo estado.
“Hoje estou vivendo aquilo que somente tinha visto em filmes”, contou padre Wilson, que por telefone concedeu entrevista à reportagem do Itapira News, na tarde de terça-feira (7). O município possui mais de 350 mil habitantes e mais de 200 mil foram atingidos pelas águas.
Ele lembra que durante um jantar com uma amiga, no final da semana passada, expunha sobre a sensação de que seria necessário abrir as portas da paróquia para receber moradores assolados pelas chuvas.
Padre Wilson atua diretamente junto às vítimas da tragédia ambiental em Canoas, no Rio Grande do Sul (Divulgação)
Ainda mais quando as autoridades municipais solicitaram a evacuação de bairros com potencial maior para enchentes.
“Já no dia 2 de maio comecei a me preocupar mais ainda com a situação. As chuvas não paravam e os rios continuavam a subir. Quando informaram de que o dique em Canoas não suportaria a pressão da água, aí fiquei muito preocupado”, salienta.
A primeira providência adotada pelo padre foi abrir as portas da paróquia para acolher os desabrigados. “Agora os abrigos da cidade estão normalizando, mas chegamos a ter 160 pessoas. Hoje (terça-feira) estamos com 130. Além disso somos ponto de distribuição. Muitos vêm até nós em busca de roupas, alimentos, produtos de higiene pessoal e produtos de limpeza”, explica.
Padre Wilson não foi afetado pelas águas porque o bairro onde a paróquia está localizada fica em uma região mais alta, do lado contrário onde as enchentes causaram estragos. Mas na terça, por exemplo, a área estava sem o abastecimento de água. “A nossa região está seca e por isso abrigamos muita gente”, ressalta.
  • CENAS TRISTES
O pároco guarda na memória cenas impactantes de moradores que perderam tudo e necessitavam de acolhimento urgente.
“A pessoa chegava até nós com os pés descalços, molhada da chuva e mesmo com o salão lotado, demos o acolhimento necessário. Oferecemos abrigo, roupa nova, banho e concedemos muito carinho”, relata. “É muito triste pegar um bebezinho de dois meses no colo em meio a esse caos. É muita tristeza. É algo sem precedentes no Brasil e principalmente no Rio Grande do Sul. Já tivemos enchentes, mas igual a essa, nunca”, garante.
Se por um lado a tragédia que devasta o sul do país trouxe tanto desalento, por outro revelou o quão solidário é o povo brasileiro.
“Quando postei nas redes sociais da paróquia solicitando voluntários, meu Deus. Foi possível notar a bondade e a disponibilidade das pessoas. Muitos chegaram em estado de choque e começaram a sair do trauma somente no domingo à tarde”, recorda o padre. Os voluntários atuam na limpeza dos banheiros, na higienização do salão e na separação e dobra das roupas, entre outras tarefas.
Salão paroquial se tornou local de refúgio para pessoas desabrigadas após fortes chuvas (Divulgação)
Padre Wilson fez questão também de agradecer publicamente a colaboração que recebeu de Itapira, principalmente após publicar vídeos nas redes sociais que clamavam por apoio.
“Minhas irmãs e o pessoal todo estão ajudando, mas a Simone Piva fez uma campanha com o PIX da nossa paróquia que colaborou demais”, aplaude. As doações encaminhadas serão de extrema importância para a corrente solidária que se formou, mesmo porque muitos mantimentos devem rarear em razão da grande demanda.
“O SOS Rio Grande do Sul encaminha tudo para uma central e até chegar a nós vai demorar. Tem coisa que a gente não ganha, como carne, frango, salsicha, presunto e queijo para fazer os lanches, e principalmente medicamentos, porque a demanda é muito grande. Tudo que chegou via PIX, de Itapira e da Diocese de Amparo, foi repassado para a conta da paróquia. E estamos arrecadando esse dinheiro para o pós. Quando o povo voltar para casa, teremos que ajudar na limpeza, reativação da água e luz, compra de colchões, camas, fogões, geladeiras. Sei que a Prefeitura e os governos estadual e federal vão ajudar, mas há várias coisas que sei que as pessoas vão precisar”, reitera.
Ele confessa que é difícil mensurar o tamanho da desolação em face de tantas perdas, mas é preciso se manter firme para colaborar com quem mais necessita. “Na frente dessa gente temos que sorrir, mesmo chorando por dentro”, diz, ao recordar um momento marcante no abrigo, quando mesmo em meio ao caos, foi possível celebrar o aniversário de uma menininha de três anos, que contava nos dedos os dias que faltavam para a comemoração. “Ganhamos um bolo, cantamos o ‘parabéns’ e celebramos. Foi lindo ver a alegria dela”, frisa. Em uma construção semiacabada da paróquia o acolhimento atende cães e gatos dos desabrigados.
  • RETRIBUIÇÃO
O padre itapirense salienta que é muito bom poder estender as mãos aos mais necessitados e sentir a retribuição pelo carinho ofertado.
“O amor é uma via de mão dupla. A gente estende a mão, mas também recebe muito amor, carinho e colaboração”, destaca. As principais necessidades dos desabrigados acolhidos na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Canoas, são alimentos não-perecíveis, produtos de higiene pessoal e de limpeza.
Padre Wilson deixou uma mensagem aos itapirenses pelos inúmeros exemplos de solidariedade com o povo gaúcho.
“Muito obrigado a todos os itapirenses pela solidariedade. Em minhas orações nunca deixo de rezar por Itapira, pelos meus conterrâneos, porque vocês me acolheram desde criança. Sempre digo que sou do interior paulista, caipira meio mineiro e meio paulista, e tenho muito orgulho de minha cidade. Que Deus abençoe todos vocês pela ajuda e, principalmente, rezem por nós. Meu muito obrigado aos itapirenses e à Diocese de Amparo, sempre tão solidários”, encerra.
Região Sul país vive tragédia sem precedentes (Gustavo Mansur/Palácio Piratini)
  • HISTÓRICO
Padre Wilson é filho de Wilson Galizoni e Ana Isabel da Rocha Galizoni. O avô, Luiz Galizoni, foi proprietário de uma ferraria na Rua Manoel Pereira, na área central de Itapira.
A mudança para São João da Boa Vista (SP), em 1982, abriu a oportunidade ao itapirense de um contato mais estreito com grupos de jovens e padres, até entrar para o seminário em 1990. Em dezembro de 1996 foi ordenado sacerdote e de 97 a 2000 permaneceu em Itapira.
O gaúcho Dom Dadeus Grings, então bispo de São João, foi promovido a Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre (RS).
Em novembro de 2000, chamado a participar de cerimônias de ordenações sacerdotais na cidade paulista onde atuou por vários anos, Dom Dadeus convidou padre Wilson para se transferir ao Rio Grande do Sul, o que foi prontamente aceito. Em Itapira ainda vivem os irmãos de padre Wilson: Alba, Sandra e Paulo Sérgio.
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